Eu sempre quis uma casa no campo. Pra plantar meus amigos, meus discos, meus livros. Um refúgio onde acordasse de manhã e olhasse para as montanhas da janela. Um dia li uma matéria numa revista falando sobre a lindeza que é morar distante. Eu que tenho zero perspectiva de sair daqui, pensei dias sobre o quanto a minha vida na cidade grande poderia ter de pequenas sutilezas rurais.

Aí eu fui pra Holanda pela primeira vez. Eu achava que tinha noção do quanto a bicicleta era o principal meio de transporte deles. Não, eu não tinha nem ideia. Saí do aeroporto, pegamos o ônibus, cheguei em Utrecht, saí da estação e não conseguia me concentrar em nada que não fosse o vai e vem das duas rodas. Eram MI-LHA-RES de bicicletas. Estacionadas, empilhadas, nos cruzamentos. Homens, mulheres, crianças, idosas. Pra cá e pra lá, minha cabeça só virava esquerda e direita admirando o quanto esse povo se relaciona de forma simbiótica com as magrelas.

Deixamos as malas na casa da minha amiga e fomos, adivinhem, pedalar. Eu precisava sentir o que era aquilo de andar para todos os lugares com vento gelado no rosto, num lugar onde a preferência de fato é do ciclista.

Aí eu voltei para casa e fiquei pensando no quanto a minha vida no Brasil poderia ter de Holanda, esse país de tantas sutilezas rurais. Isso, A BICICLETA. Pedalar sempre esteve ao alcance das minha mãos, tudo era uma questão de hábito. Eu até dava umas pedaladas de final de semana. Mas queria mais, queria o dia a dia, o deixar o carro em casa para desafogar o trânsito da cidade, queria não queimar mais combustível fóssil nesse nosso ar tão saturado, não ter que enfrentar trânsito para chegar em casa. Queria liberdade.

Já comecei carregando o Davi comigo. Treinamento puxado, intenso tipo cross fit. Coloquei a criança na cadeirinha e partiu qualquer lugar que seja rua de verdade. No primeiro dia, muito medo. Voltei pra casa com os braços intocáveis de tanto que me agarrei no guidon. Davi lá amando estar comigo e eu só pensando nos riscos. Mas se as holandesas conseguiam, eu também conseguiria.

Passou um, dois, trinta, sessenta dias e eu já andava no cantinho da rua do lado do ônibus. Sem achar que ia morrer. Seis meses depois já estava levando Davi pra escola, distante meia hora da minha casa. Um ano depois estava na Holanda de novo, sem aquele brilho da primeira vez mas certa de que aquela tinha sido a melhor escolha do ano anterior.

E sabe por que estou contando isso? Porque esses dias saí às 21h30 para atender um cliente e voltei às 23h de bicicleta , sem nem pensar em outra possibilidade de transporte. Para mim não há nada mais seguro e mais libertador. Aí lembrei de como tudo tinha começado. Sorri. Tive a certeza que a felicidade não tem lugar, nem hora marcada. É aqui, agora e vem de dentro. Tudo uma questão de rotina. Viver bem é um hábito.

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