vou de ônibus

Toda vez que ando de ônibus lembro dos tempos em que morava em São Gonçalo, estudava em Niterói, trabalhava no Rio e dormia cinco horas por noite. O rolê era punk. Eu era jovem tipo 20 anos. Tinha sonhos tipo o tamanho do mundo. Tentava ser alguém na vida enquanto lutava pelo meu amor. Tudo de ônibus.
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Quando terminei a faculdade me mudei pra Niterói. E já não trabalhava mais no Rio. Andar de ônibus só pela minha cidade mesmo. Aí eu preferia andar a pé. Casamento marcado a gente economizava até nas passagens do ônibus. Também, se deslocar pela calçadão com vista para o Pão de Açúcar é daqueles luxos máximos.
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Aí casei e me mudei para um bairro que um lado da rua é Niterói e o outro é São Gonçalo. A gente morava no lado do subúrbio. E eu só via vantagens. O IPTU era baratíssimo e a gente continuava dando endereço como se fosse em Niterói. Não sei porque já que se tem uma coisa que me orgulho na vida é a minha origem. São Gonçalo forever.
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Nessa época a gente já tinha carro. Era modesto sim mas não deixava a gente na mão. Um bom status numa família tradicional brasileira que de tradicional não tem nada amém mil vezes. Já morria de medo de andar de ônibus por conta de assalto. White people problems.
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Depois a gente mudou pra zona sul niteroiense. Depois a gente começou a se deslocar de bicicleta. Depois até de noite a gente saía de bicicleta. Agora a gente já pensa em vender o carro e ficar só com as bicicletas. E o uber para as saídas alcoólicas. E o ônibus para os dias de chuva. Tipo hoje.
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Mas na verdade, eu tô falando isso porque enquanto andava de ônibus me lembrei que o Davi, no caso meu filho, não sabe o que é passar por cima ou por baixo da roleta. Nem o que é entrar pela frente. Andou de ônibus poucas vezes na vida. E só de ônibus novo, com ar condicionado. Preciso lembrar ao Davi que a gente nada num mar de privilégios, pedala numa ciclovia de boa vida. E que o mínimo que  a gente pode fazer para agradecer ao universo todos os legos dessa casa é doar mais brinquedos, distribuir mais abraços, dar a mão pro amigo que não consegue subir no escorrega. Porque a gente só vai parar de ter medo de andar de ônibus quando todas as crianças frequentarem o mesmo parquinho.
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