na direção do novo

Alguém resolveu levar a minha bicicleta sem a minha autorização. Furto, isso. Enquanto alguém levava a minha bicicleta sem autorização, eu cortava minha franja de olhos fechados contando para o Universo que estava pronta para receber o novo. Tranquei a bike no bicletário em frente ao shopping. Subi, cortei o cabelo, desci. De longe não a vi. Dei alguns passos desnorteados acreditando que ela pudesse estar em algum outro lugar. Tava não, era ali mesmo. Não estava mais. Quase chorei.
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Por que? Reflete, Camilla, reflete. Eu posso ter sido salva de um acidente. Né não, é mais que isso. É que duas semanas antes eu estava falando pra família que comprei a bicicleta bem baratinha porque se alguém levasse não tinha problema. Só que teve problema. Tinha o caixote lindo que o Leandro fez pra mim. Tinha que o banco era baixo e eu conseguia colocar as duas plantas do pé no chão e me sentir super segura. Tinha que eu me sentia total no controle colocando os pés no chão. Tinha que eu já andava nela há três anos e não queria arriscar andar em outra mais alta, menos segura, menos zona de conforto. Tem que eu resisto com força a toda e qualquer mudança. Sofro até pra atualizar o ios do meu computador. Apego é o nome.
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Só que eu pedi o novo. Falei pra Deise, corta a franja, hoje eu vou mudar. O universo ouviu, ele sempre ouve. Me obrigou a sair do sofá tão confortável, tão seguro, tão quentinho, tão meu. Aí que eu tenho um parceiro que adora mudar os móveis da sala de lugar (eu odeio!). Eu disse: vai lá no quartinho das doações de bicicleta do prédio pega a mais parecida com a minha para mim. Ele fez: pegou a melhor opção disponível pra ele. E chegou dizendo que a dele seria a minha. Só que eu tinha horror de andar na dele. É alta com guidon grande. Na minha pequeneza, de pensamento mesmo, não queria nem arriscar.
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Quase chorei. Me coloquei no lugar de vítima. Não obrigada, vou ficar sem bicicleta. Respirei. Refleti. Conversei. Pra alguma coisa tem que servir os livros de auto ajuda. Tá, tudo bem, abaixa o banco e ajusta o guidon que eu vou tentar. Tentei. Com muito medo mas tentei. Primeiro sozinha. Meus planos eram me adaptar por completo à bike para depois tentar com Davi. Hoje me veio coragem. Antes de me adaptar por completo. Davi, vamos pra escola de bicicleta com a mamãe? Lá fomos nós. Com medo, quase tremendo, convocando coercitivamente o anjo da guarda a ir colado na gente.
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No meio do caminho o medo deu lugar a uma satisfação indescritível. Eu venci. Guardei as resistências na bolsa e saí da minha zona de conforto. Com uma conversa franca no trajeto. Eu e Davi. Ele trouxe a dificuldade dele de defender. Eu falei sobre o quanto estava feliz de ter enfrentado meus medos. Dividimos angústias, trocamos como iguais. Deixei ele na escola e voltei pra minha vida. Certa de que é assim que quero viver. Tem dia que não dá, tudo bem. Mas sempre que der, é na direção do novo que colhemos mais flores pelo caminho.

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2 Comments

  1. Adorei!
    Estava morrendo de saudade de ler suas experiências no vidadedavi, mas achei que tinha desistido de escrever. Estou feliz de ter achado o seu novo cantinho. Beijocas.

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