Como será o amanhã?

Cês também tão achando que tem uma energia nova no ar? As crianças não são mais como nós fomos. Não toleram mais respostas de uma palavra só, cada vez mais reivindicam seus lugares na construção familiar. Mas isso a gente já sabe faz um tempinho. Eu quero falar mesmo é do choque nos relacionamentos. No macro, assistimos uma revolução mundial. Tá tipo lado A, lado B, todo mundo berrando para defender o próprio ponto de vista. Mas também não é só no macro. Na sua casa você tá sendo obrigadx a reconstruir sua relação com o seu parceirx? Sei. Não tá conseguindo manter os velhos paradigmas de relacionamento familiar? Aham. Tudo tá estranho, tipo ninguém é mais o mesmo? É isso. Uma amiga ouviu de um amigo um resumo do que eu, na minha singela opinião, tenho convicção que está acontecendo. O velho já não serve mais. O problema é que a gente ainda não conhece o novo.
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Sim, precisamos construir uma nova ordem social. No Planeta Terra. Mas também na nossa própria casa. Tanto faz se a lua nova tá em áries, em gêmeos ou em touro. O momento é de intuição, transformação, realização. Renovação. A gente precisa reconstruir. A gente, eu no caso. A revolução é de dentro da fora. Dentro de cada um. Quando a gente muda o mundo muda com a gente. É clichê mas é verdade.
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Mudar dói, né?. Dói pra caralho. (Foi mal a palavra mas é a melhor no meu dicionário pessoal para potencializar qualquer coisa.) Muitas vezes é mais fácil negar. Eu????? Eu não sou assim. Será que não? Também é super confortável colocar a culpa no outro. Mas você bla bla bla. Minha primeira reação é tipo essa, olho pro lado e jogo a culpa pra quem tá passando pela minha frente na hora. Só que não tá dando mais para se manter nessa zona confortável. O tempo tá voando, a energia da transformação tá se fortalecendo cada vez mais, os relacionamentos estão acabando. Amigos estão parando de se falar por causa de política. Casamentos estão acabando porque ninguém quer lavar a louça. Pais e filhos não conseguem dialogar. Eu não quero pagar pra ver.
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Tô fazendo assim: me responsabilizando. Pelo que me cabe. Se responsabilizar é diferente de se culpar. A culpa te joga no buraco, a responsabilidade faz você pular o buraco. É um exercício diário (e para o resto da vida) de auto conhecimento. É se livrar de crenças e padrões seculares. É olhar pra dentro e abraçar as feridas. É se amar mesmo errando o caminho de volta pra casa. É confiar no universo, é receber 100% do amor de Deus.
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Eu acredito de fato que não precisamos mudar todo o mundo. Precisamos mudar nós mesmos. Se cada indivíduo fizer sua tarefa de casa, a mudança vem em efeito dominó. Vamos todo mundo? Vamos fazer essa reflexão todo dia? Vamos praticar compaixão e empatia? Vamos parar de jogar papel na rua? Vamos consumir com consciência? Vamos ser presença e afeto na vida dos filhos? Vamos abaixar para falar com uma criança? Vamos parar de disputar quem vai estender a roupa na corda? Eu vou, toca aqui.

 

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cinquenta por cento

O mundo está ao contrário e todo mundo já reparou, né? Tem alguém no modo felicidade plena? Aqui a vida nunca esteve tão real. Uma pessoa controladora, tipo eu, que decidiu ser feliz, tipo eu, que está sempre no modo auto reflexão, tipo eu, não consegue se manter com todos os buracos tapados. A gente tampa ali e aparece aqui. Aí tampa aqui e aparece lá. Já aceitei que o 100% é uma ilusão. Mas uns 80% seria ótimo, não acham?
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Tenho um amigo que tem uma teoria filosófica-cotidiana ótima: tudo na vida é 50%. Pode ser e pode não ser? 50%. Podemos estar certos ou errados? 50%. Fulaninho é bom ou mal? 50%. Resumindo: tudo na vida tem um segundo lado. Ou, desconhecemos as razões do invisível. Ou, o controle é uma ilusão que alimentamos para atender ao próprio ego.
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E esse é o meu ponto, minha ferida, minha pulga atrás da orelha. O danado do controle. Se eu pudesse, controlava até pensamento. Não só os meus, mas os dos outros também. Sim, é grave. Também colocaria Deus na parede e exigiria que me dissesse o dia em que volto para a outra dimensão. Sente o nível! Davi não misturaria a comida toda no prato porque gente, não é muito mais bonito comer tudo separadinho? Não, é mais bonito comer do jeito que cada um acha melhor, Camilla.
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O bom de tudo é que o Universo deu asa à cobra mas colocou as nuvens certas no caminho. Cada um que passa por mim e me manda “senta lá, Claudia” eu agradeço imensamente. Quer dizer, primeiro eu sofro, choro, me faço de vítima. Mas uma hora a lucidez chega, a sensatez assume o controle, e eu me responsabilizo pelo que me cabe. E é de verdade.
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Sabe, eu colho os benefícios de ser controladora! (não é 100% ruim, só os 50% mesmo). Por outro lado, não quero que o controle seja um fardo para mim e para quem está do meu lado. Mais que isso, desejo muito me entregar ao plano invisível de vida, neutralizar os pensamentos, diminuir a força do raio julgador, deixar as coisas acontecerem como tiver que ser, desapegar. Talvez esse seja o grande calo, o tal do apego. Irmão gêmeo do controle, parente próximo da preocupação, inimigo da leveza. Vem cá, apego querido, me abraça, a gente tá junto mas vamos levantar a bandeira branca, ok? Você vai estar sempre aqui, eu sei. Mas descansa um pouco, tira uma soneca. O resto vem.
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PS: eu queria escrever aconselhamentos tipo auto ajuda, sabe? JURO. Não consigo. A escrita pra mim é em primeira pessoa, cotidiana, vida real, a minha individualidade, os meus dilemas. É a materialização dos meus pensamentos e desejos. Uma forma pública de fazer o universo me escutar e dar uma força.

Marielle, presente

Outubro de 2016. O cenário na política era péssimo e as eleições municipais estavam se aproximando. Se o voto é a arma da democracia, não dava para desperdiçar o meu. Escolhi Taliria Petrone, mulher, negra, periférica. A minha luta é por igualdade. Tê-la como representante na Câmara Municipal era colocar em pauta toda uma causa social.

Não demorou muito comecei a ouvir falar de Marielle. Mulher, negra, favelada, gay. Seria muita ousadia sonhar com essas duas sacudindo a poeira do poder público? As urnas disseram que não. Talíria foi a mais votada em Niterói, Marielle a quinta no Rio. Cara, há uma luz no fim do túnel, nem tudo está perdido, vamos resistir, a luta continua, vai dar certo.

Março de 2018. Tô deitada lendo com Davi. Leandro chega correndo no quarto. Deu no rádio que uma vereadora do psol foi baleada no Estácio. Pega o celular correndo, globo.com, vereadora Marielle Franco é assassinada. ASSASSINADA. Mãe, o que aconteceu com ela? Tá tudo bem, filho, vamos rezar. Caralho. Não é possível. Não não não. Filho, tá tudo bem, tentaram fazer um mal a ela mas deu tudo certo. Não deu tudo certo. Não tá certo. Não tem como dar certo.

Hoje meu otimismo foi pro ralo. Hoje não consigo ver saída. Hoje não deu pra trabalhar. Não deu pra dizer pro filho que tudo vai ficar bem. Hoje tudo parece que foi em vão.

Mas amanhã eu vou levantar certa de que não foi em vão. Amanhã, numa conversa bem franca, eu vou falar pro Davi que nenhuma mulher merece morrer por ser mulher. Eu vou conversar com o Davi que o povo negro merece voz, merece compaixão, merece amor. Davi tem que aprender que vivemos numa bolha de privilégios e que não faz mal dividi-los com quem nasce condenado ao subsolo. Davi, meu filho, todo mundo tem responsabilidade aqui no Planeta Terra. Aprende isso pra sempre.

Minha vida é política. Eu tô aqui pra mudar o mundo. Começando no lado de dentro. Dentro da minha casa. Não nos calarão. Marielle, presente.

sobre voltar mais uma vez

Tô pensando há dias num tema bacana para voltar a escrever nesse meu caderninho virtual. Rascunhei mentalmente um milhão de vezes, fiz parágrafos inteiros enquanto tomava banho. Aí a rotina da casa me engolia, o Davi me consumia, o trabalho sucumbia, e eu nada de colocar no papel as minhas ideias. Não veio um tema impactante para um recomeço mas cansei de me sabotar. Minha alma suplica, minhas mãos pedem, minha cabeça implora. Escrever é das coisas que sei fazer melhor na vida. Escrevo e me entendo. Então vambora, né?

Na falta de um assunto contextualizado para um retorno, vamos falar de Davi. Não sou especialista em maternidade (alguém é?) mas gosto de dividir nossos lemas e dilemas. Verdade seja dita, tem bem mais dilema do que lema. Cada dia mais sei que nada sei. Há anos que a minha maternagem é intuitiva. Tenho um norte mas vivo tonteando entre o sul, o leste e o oeste. De toda forma, parece que tá funcionando. Por enquanto.

Davi é a bagunça da minha vida, minha alegria, minha tristeza, meu ar, meu sofá. O caos que disciplina, o desequilíbrio que equilibra. Tá numa fase bacana, de questionamentos sensatos, de conversas horizontais, de se fazer respeitar de forma assertiva. Tem recaídas e é isso que espero dele. Agora mesmo foi pra escola chorando lágrimas de sangue porque exigiu uma pasta de dente de adulto. E tinha que ser naquele exato momento. Paciência, filho, nem tudo dá pra ser aqui e agora. No geral, os conflitos tem se resolvido de forma mais leve pra todo mundo.

Entra ano e sai ano e eu continuo nas minhas incertezas. Qual a melhor rotina? Coloco no curso de inglês? Alguma atividade extra além da escola? Como ajudá-lo a não perder o controle? Algum dia vou ter certeza? Talvez não. Que a minha alma controladora veja na incerteza o lado bom do viver.

a poesia de todo dia

Ninguém deu a ideia, ninguém pediu para posarem. Estávamos conversando, olhamos pro lado e estavam assim. Linha reta, pernas abertas, braços pro alto. Inconscientemente reverenciando a imensidão do mar azul. Corri para pegar o celular torcendo para dar tempo de registrar. Voltei e as mãos não estavam mais pro alto. Tudo bem. Preferi não interferir em nada. Preferi deixar eles no tempo deles, do jeito deles, imaginação intacta, genuinamente pura. Fotografei sem que percebessem e me retirei. Para que continuassem fazendo da vida uma poesia.

a escola que eu sonhei

Duas coisas que sempre soube. Um, Davi entraria na escola só depois dos 3 anos. Dois, a escola teria um método alternativo de educação. Minhas memórias de colégio tradicional não são as melhores do mundo.

Nem morava na minha cidade atual mas já conhecia a escola de ouvir falar. Não é famosa, não faz propaganda. É um colégio de bairro. Montessoriano de verdade. De verdade verdadeira. Não é influencia. É raiz. Ouvi falar pela primeira vez num dos meus primeiros estágios, com 20 e poucos anos. Os filhos de duas colegas de trabalho estudavam lá e eu ficava maravilhada com as histórias. Nunca esqueci dessas conversas. Na hora de escolher pra valer, não visitamos nenhuma outra. Fui lá, me apaixonei, matriculei, me emocionei com a forma que o receberam no primeiro dia de aula. Era ali.

Ontem participamos da nossa primeira Jornada da Observação. Vinte minutos para os pais ficarem dentro da sala de aula observando – somente e prioritariamente observando (como diria meu pai, observar é com os olhos) – as crianças trabalhando. Sim, lá conhecimento é levado muito a sério. É mais que brincadeira. É trabalho. Um trabalho adequado para cada criança. Individualidade é sagrado. Tivemos certeza.

Num tom de voz bem baixo, bem mesmo, a professora mantém os alunos conectados com a proposta. Eles não se distraem com a chegada dos pais. Davi quando nos viu, abriu um sorrisão, deu tchau mas não levantou do lugar, não se dirigiu a nós. As outras crianças continuaram como se nada estivesse acontecendo de diferente. Eles de fato se entregam a essência da proposta.

Cada um levantou e escolheu o material que queria trabalhar. Vale ressaltar que no método o querer tem a ver com poder. Cognitiva e emocionalmente, cada criança está apta a trabalhar com um tipo de material. Eles confiam nisso. Confiam nas crianças. Isso é autonomia. O processo é muito orgânico.

Tinha aluno em materiais mais complexos da estante de matemática, tinha aluno passando água de pote de vidro para garrafa de vidro com funil, tinha aluno escrevendo o nome no papel, tinha aluno desenhando objetos observados, tinha aluno espanando a sala. Isso mesmo, tinha aluno limpando a sala. Tinha aluno limpando a mesa em que a acabara de lanchar. Não tinha nenhum lixo no chão. Nenhum.

Alunos se responsabilizando pela limpeza e conforto de todos. Com 3, 4 e 5 anos. Crianças adquirindo conhecimento de forma prática. Estudo vivo. Que levarão para o resto da vida. Nada de decoreba, de professora no centro de todos ensinando qualquer coisa sobre animais e minerais. Não. Alunos aprendendo sozinhos, através de materiais disponíveis e adequados para o tempo de cada um deles. Um micro mundo civilizado onde todos entendem seus direitos e deveres.

Maria Montessori (aos poucos divido mais do pouco que sei sobre essa imensa mulher) dizia que para agir sobre a sociedade, devemos voltar nossa atenção para a infância. Concordo infinitamente. Reconheço meu lugar de privilégio por meu filho vivenciar essa metodologia. Em troca, prometo me esforçar continuamente para devolver ao mundo um cidadão com consciência do seu papel fundamental na construção de uma sociedade melhor.

Davi estuda na escola que eu e o Leandro queríamos ter estudado. E tudo indica que uma escola bem adequada às demandas dele. Obrigada, Universo!

OBS 1: longe de mim jogar a escola tradicional na fogueira. Tenho certeza que existem várias excelentes por aí. Tenho mais certeza ainda que existem crianças e famílias para todos os métodos. Demos sorte que o Davi rendeu muito bem no método que a princípio escolhemos para ele. Mas a partir do momento que ele não render mais, a regra é mudar.

OBS 2: A escola do Davi não é perfeita. Tenho algumas críticas, inclusive. Todas no macro. No micro, no individual, na necessidade de cada criança, eles sempre nos surpreenderam positivamente. Daí todo o resto se torna menor.

Passado, presente, particípio

Eu queria ter visto Raul, Legião e Cassia. Não deu. Eu queria ver Novos Baianos. Durante anos achei que não ia dar. Mas deu. Eles se reuniram mais uma vez. Talvez a última chance de ver a formação original. Foi ontem, foi bem mais incrível do que dava pra imaginar.

Os baianos embalaram muitos dos meus momentos inesquecíveis. Quando estava quase no topo do Pico das Agulhas Negras e não dava mais pra continuar fiquei uma hora sozinha numa pedra esperando a galera voltar. Minha companhia? Dê um rolê no repeat. Quando Davi tinha quase dois e uma das primeiras músicas nossas que aprendeu foi preta, preta, pretinha. Nas festinhas memoráveis da faculdade não faltava levarei saudades de Aurora. Nos dias de folia minha carne é de carnaval é legenda obrigatória. A menina dança e eu danço junto como se não houvesse amanhã.

Eles conseguem ser mais atração principal do que as músicas. Baby maravilhosa quero ser ela quando cresce, mesmo com a coluna arrebentada segundo ela, rebolava e cantava numa malemolência super jovem. Moraes meu mal humorado favorito, inconformado com o som do violão que insistia em não sair perfeito, reclamou o show inteiro e saiu do palco antes do grand finale. Obrigada, Moraes, por ser tão você!. Pepeu raio estrela e luar, conquistava a galera com seus solos sensacionais de guitarra. Paulinho, com sua boca de cantor da porra, que voz sinistra e que melhores músicas. Luiz Galvão, o velhinho mais fofo do mundo, sentadinho numa cadeira, lá ficou quase o show inteiro e só levantada para recitar poemas. Melhor pessoa. Pra completar, um cenário cheio de luz e cor e uma plateia totalmente envolvida com o momento. Foi foda!

Não se assuste pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa. Vou mostrando como sou e vou sendo como posso. Porque não viver nesse mundo se não há outro mundo? E a razão da vida é amar!