Passado, presente, particípio

Eu queria ter visto Raul, Legião e Cassia. Não deu. Eu queria ver Novos Baianos. Durante anos achei que não ia dar. Mas deu. Eles se reuniram mais uma vez. Talvez a última chance de ver a formação original. Foi ontem, foi bem mais incrível do que dava pra imaginar.

Os baianos embalaram muitos dos meus momentos inesquecíveis. Quando estava quase no topo do Pico das Agulhas Negras e não dava mais pra continuar fiquei uma hora sozinha numa pedra esperando a galera voltar. Minha companhia? Dê um rolê no repeat. Quando Davi tinha quase dois e uma das primeiras músicas nossas que aprendeu foi preta, preta, pretinha. Nas festinhas memoráveis da faculdade não faltava levarei saudades de Aurora. Nos dias de folia minha carne é de carnaval é legenda obrigatória. A menina dança e eu danço junto como se não houvesse amanhã.

Eles conseguem ser mais atração principal do que as músicas. Baby maravilhosa quero ser ela quando cresce, mesmo com a coluna arrebentada segundo ela, rebolava e cantava numa malemolência super jovem. Moraes meu mal humorado favorito, inconformado com o som do violão que insistia em não sair perfeito, reclamou o show inteiro e saiu do palco antes do grand finale. Obrigada, Moraes, por ser tão você!. Pepeu raio estrela e luar, conquistava a galera com seus solos sensacionais de guitarra. Paulinho, com sua boca de cantor da porra, que voz sinistra e que melhores músicas. Luiz Galvão, o velhinho mais fofo do mundo, sentadinho numa cadeira, lá ficou quase o show inteiro e só levantada para recitar poemas. Melhor pessoa. Pra completar, um cenário cheio de luz e cor e uma plateia totalmente envolvida com o momento. Foi foda!

Não se assuste pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa. Vou mostrando como sou e vou sendo como posso. Porque não viver nesse mundo se não há outro mundo? E a razão da vida é amar!

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o melhor lugar do mundo é aqui e agora

Era um grupo de estudo. Toda semana nos encontramos e estudamos formas de construir o paraíso interior. Tem temas pré definidos, tem apostila, tem contextualização de paradigmas mundiais, é sensacional. Tem um monte de dicas para ser um mundo melhor. Número 1, gratidão em qualquer circunstância. Número 2, pensamento no positivo sempre. Número 3, a era do luz tá bem próxima. Mas toda vez que a palavra corrupção ou sociedade ou economia ou política aparece no projetor a gente chora as mágoas até não poder mais.

Porque brasileiro é corrupto, porque no Brasil só dá para comprar parcelado, porque quando tinha aulas de moral e cívica a gente aprendia a ser cidadão, porque na Noruega as crianças tem aula de costura, de culinária, de um monte de coisa que faz a gente ser gente, porque a Dinamarca é a melhor qualidade de vida do mundo. Porque a gente insiste em acreditar que a solução está do lado de fora?

Não é patriotismo não. Isso aqui não é um desagravo ao Brasil. É só uma defesa do aqui e agora. Enquanto reclamamos, esquecemos de acompanhar o mandato do deputado em que votamos. Você ainda lembra o nome dele? Enquanto não fazemos um planejamento financeiro e compramos mais do que o orçamento permite não sobra nada no fim do mês para a poupança. Enquanto apontamos o dedo para os filhos dos outros, esquecemos de ensinar aos nossos como se faz para conviver no coletivo. Enquanto invejamos aulas de culinária no país vizinho, não cozinhamos com as crianças porque suja a cozinha toda.

O capitalismo é focado na escassez mas dentro das nossas casas podemos focar na abundância. Podemos construir um mundo novo num exercício diário de questionamento e observação. Não estou falando que é fácil. Não! É difícil pacas. Mas tem que ter um ponto de partida. Que pode ser agora. Se a gente finalmente aceitar que estamos exatamente onde devemos estar. Obrigada, universo!

minhas histórias dos outros

Era só um planejamento para ver se tudo flui melhor daqui pra frente. Coloquei em um dos post it: contar mais histórias dos outros. Aí lembrei do Zuenir e desse livro que eu adoro. Puxei da prateleira dos livros para dar uma folheada. Zuenir fez isso muito bem. Bem disse ele que sua memória estava nas reportagens escritas nos jornais. Muita da minha está na fotografia. Vejo a foto de um casamento há dez anos e sou capaz de lembrar de detalhes do tipo o casal de padrinhos que chorou durante a cerimônia ou a cor da decoração ou ainda o ápice da pista de dança.

Contar histórias dos outros é uma das coisas que mais amo na vida. Criar conexões, contar para uma amiga a história de sucesso da outra, compartilhar com o mundo todas essas memórias. Só sei fazer isso. Escrever e fotografar são consequências, meios, instrumentos, pontes. Memórias.

Hoje eu só desejo consistência e regularidade. Como ariana convicta, começo com empolgação muitas vezes e paro sempre na fragilidade da continuidade. Muito da minha vulnerabilidade está em continuar caminhando na mesma direção. As distrações do caminho são muitas, as particularidades do signo não ajudam. Mas a gente segue acreditando. Há de dar certo. Mesmo que de um jeito errado. Sempre dá. Aqui está mais um ponto de partida.

reflexos de um desfralde nada fácil

Disse o pai que na madrugada ouviu passos em direção ao banheiro e foi lá conferir. Era o Davi, fazendo xixi, sozinho. De longe observou o loiro voltar para a própria cama e dormir de novo. E me acordou de madrugada mesmo para contar. Porque a gente sabe o quanto foi difícil o desfralde pra todos.

O xixi escapuliu incontáveis vezes. Tiramos a fralda noturna. Voltamos com a fralda noturna. Tentamos mais uma vez. Xixi na cama dia sim, dia não. Mesmo que a gente colocasse ele todos os dias dormindo para esvaziar a bexiga, o xixi dava um jeito de nos driblar.

Eu meio que entrei em parafuso. Tinha ido tão bem no desmame e no rompimento com chupeta e mamadeira. A pulga que atende pelo nome de culpa grudou atrás da orelha. Nas decisões unilaterais, que não dependiam dele, tudo ia bem. Mas e o tempo dele? Será que estava sendo respeitado?

Escorrega pra lá, escorrega pra cá, pede ajuda aos universitários para voltar aos eixos. O xixi já estava dominado faz tempo mas os reflexos de todo entorno nem tanto. Respira. Não pira. Vai dar certo. Só uma ajeitadinha aqui e ali. Até que ele acorda, levanta, vai até o banheiro, faz xixi e volta a dormir sozinho. Pela primeira vez. Sozinho. Autonomia. Alívio.

Parece pouco mas é muito. Eu sei que tudo passa. Eu não quero só ver passar. Quero observar, questionar, dialogar. Com leveza, eu sei. Mas com atenção. Se eu perder o avião, que consiga lugar no próximo voô. Cancelar a viagem, jamais.

de mim pra mim mesma

Camilla, querida!

34 anos. Quem diria, os 30 estão cada vez mais distante. Quase metade da vida média de um brasileiro. Pergunta importante: está feliz? Que bom! No fim de tudo essa resposta faz toda diferença. De qualquer forma, tenho alguns conselhos, quer dizer, dicas, ou se achar melhor, ideias. Escuta:

– Abra mão do controle. Definitivamente. Abrace o apego mas fala pra ele com carinho que pode ir embora. Os dias estão voando, a vida é um sopro. Se entrega. De corpo e alma. Sem garantias, sem expectativas. Vai dar certo, sempre dá, lembra?

– Se ame, se valorize, se dê colo, carinho e compaixão. Lembra que o amor, aquele de verdade, que não espera nada em troca do outro, que não é favor, vem de dentro. Quando a gente é feliz consigo mesmo, não manda a conta da felicidade pro outro.

– Mas não esquece de amar o próximo, tá bem? Quando fazemos nossos pares felizes, a felicidade bate no espelho e volta em dobro pra gente. Seja gentil, elogie, cative, se coloque à disposição, leve luz. Dê a mão e caminhe junto. Dividam as virtudes, transformem o mundo.

– Admira sempre o Leandro. Ele é incrível. Tem qualidades maravilhosas que superam qualquer defeito. Tudo bem os sapatos espalhados pela casa, a memória fraca, a necessidade de direcionamento. Ele tá muito disponível para atravessarem essa vida de mãos dadas com amor e afeto. Isso basta!

– E o Davi? Ahhhh, o Davi! Que graça ele está. Não esquece que ao pegar ele no colo desejou-lhe liberdade para ser o que quisesse. Esteja ao lado, abrace, acolha, pegue no colo. Mas deixa ele caminhar com as próprias pernas. Não fala muito alto se não ele não vai conseguir ouvir a própria voz. Ensine arte, música, cinema, disciplina, organização, amor, amizade. Ensine fé. O resto vai!

– Já passou da hora de tirar o foco da escassez. Cultive abundância. Muita e sempre.

– Agradeça todos dias, incansavelmente, por tudo. Principalmente pelas pessoas que Deus colocou ao seu lado. Elas são fodas. Te ensinam tanto, tanto. Te apoiam incondicionalmente. Trazem ternura, são espelhos, deixam os ombros à disposição. Que sorte a sua! Gratidão sempre!

No mais te desejo saúde, saúde, saúde. Sabedoria também. Paciência, doçura, luz, amor. Sucesso. E leveza.

Devo ter um monte de outras coisas para te falar mas agora só me lembro dessas mais importantes. Tranquilo, o resto a gente conversa pessoalmente. Cineminha essa semana? Depois a gente passa na livraria e come uma pizza. Combinado!

Com carinho,

Eu mesma!

 

o Carnaval nunca tem fim

Ele tinha um mês e meio no seu primeiro carnaval. Eu era a mãe que no calor-quarenta-graus-hell-de-janeiro passou Natal, Reveillon e todo tão amado verão sem chegar nem no calçadão para uma água de côco. À beira do surto, no domingo de Carnaval, propus ao marido:

– Tem um bloco de crianças aqui perto. Vamos?

O marido, companheiro de enclausuramento, topou. Colocamos fantasia no recém chegado e partimos. Era meio dia quando demos as caras. Cheguei com ele agarrado num peito, saí com ele agarrado no outro. Ficamos ali mais ou menos uma hora, uma hora e pouquinho. Seguimos o bloco perseguindo as sombras, cantando marchinhas, sambando ainda que tímidos. Nos revezamos em responder o tanto de curiosos que se aproximava para dizer: “Que bonitinho MAS QUANTOS MESES ELE TEM?” Aprendi bem rápido a relevar o mundo no pós maternidade. Voltei pra casa de alma lavada. O Carnaval ainda estava dentro de mim.

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Depois desse, estivemos em todos os outros Carnavais. Com ele, sempre. Já foi Axl Baby, Cowboy, Peter Pan, Chaves, Palhaço, Super Homem. Já gostou, já odiou, já pediu pra ir embora

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Filho, Carnaval é alegria, lembra? Centenas de pessoas reunidas para celebrar a vida, para cantar sem vergonha de ser feliz. Gente que abraça o desconhecido, que acorda seis da manhã para ver o cortejo mais incrível passar, que se oferece para ajudar o outro em apuros, que joga água para amenizar o calor dos foliões. Que se fantasia para viver o lúdico, que se liberta, que se emociona com pernas de paus, baianas, esculturas vivas, todos juntos para fazer um desfile impecável. Que se joga de cabeça na tarefa fazer desse o melhor Carnaval de todos.

Se eu ainda tinha dúvidas, agora não tenho mais. Finalmente ele se entregou. Entendeu o espírito do que é fazer parte dessa festa coletiva mais linda de todas. Aproveitou como se não houvesse amanhã o espaço público livre e seguro. E tocou sua amada flauta com a seriedade de um músico numa orquestra de verdade. Com ritmo, com jeito pra coisa e o principal, com a alegria de um folião.

Que a nossa fantasia seja eterna. Que viver seja festejar. Que o Carnaval não tenha fim.

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a Holanda é aqui, agora

Eu sempre quis uma casa no campo. Pra plantar meus amigos, meus discos, meus livros. Um refúgio onde acordasse de manhã e olhasse para as montanhas da janela. Um dia li uma matéria numa revista falando sobre a lindeza que é morar distante. Eu que tenho zero perspectiva de sair daqui, pensei dias sobre o quanto a minha vida na cidade grande poderia ter de pequenas sutilezas rurais.

Aí eu fui pra Holanda pela primeira vez. Eu achava que tinha noção do quanto a bicicleta era o principal meio de transporte deles. Não, eu não tinha nem ideia. Saí do aeroporto, pegamos o ônibus, cheguei em Utrecht, saí da estação e não conseguia me concentrar em nada que não fosse o vai e vem das duas rodas. Eram MI-LHA-RES de bicicletas. Estacionadas, empilhadas, nos cruzamentos. Homens, mulheres, crianças, idosas. Pra cá e pra lá, minha cabeça só virava esquerda e direita admirando o quanto esse povo se relaciona de forma simbiótica com as magrelas.

Deixamos as malas na casa da minha amiga e fomos, adivinhem, pedalar. Eu precisava sentir o que era aquilo de andar para todos os lugares com vento gelado no rosto, num lugar onde a preferência de fato é do ciclista.

Aí eu voltei para casa e fiquei pensando no quanto a minha vida no Brasil poderia ter de Holanda, esse país de tantas sutilezas rurais. Isso, A BICICLETA. Pedalar sempre esteve ao alcance das minha mãos, tudo era uma questão de hábito. Eu até dava umas pedaladas de final de semana. Mas queria mais, queria o dia a dia, o deixar o carro em casa para desafogar o trânsito da cidade, queria não queimar mais combustível fóssil nesse nosso ar tão saturado, não ter que enfrentar trânsito para chegar em casa. Queria liberdade.

Já comecei carregando o Davi comigo. Treinamento puxado, intenso tipo cross fit. Coloquei a criança na cadeirinha e partiu qualquer lugar que seja rua de verdade. No primeiro dia, muito medo. Voltei pra casa com os braços intocáveis de tanto que me agarrei no guidon. Davi lá amando estar comigo e eu só pensando nos riscos. Mas se as holandesas conseguiam, eu também conseguiria.

Passou um, dois, trinta, sessenta dias e eu já andava no cantinho da rua do lado do ônibus. Sem achar que ia morrer. Seis meses depois já estava levando Davi pra escola, distante meia hora da minha casa. Um ano depois estava na Holanda de novo, sem aquele brilho da primeira vez mas certa de que aquela tinha sido a melhor escolha do ano anterior.

E sabe por que estou contando isso? Porque esses dias saí às 21h30 para atender um cliente e voltei às 23h de bicicleta , sem nem pensar em outra possibilidade de transporte. Para mim não há nada mais seguro e mais libertador. Aí lembrei de como tudo tinha começado. Sorri. Tive a certeza que a felicidade não tem lugar, nem hora marcada. É aqui, agora e vem de dentro. Tudo uma questão de rotina. Viver bem é um hábito.

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